segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Porque não confio (muito) na semiótica.

(Este "texto" foi escrito como resposta a um colega do orkut que, ao visitar a comunidade Anti-Design, viu um post meu em que eu rapidamente fazia uma crítica à semiótica no Design. Este texto não visa ser acadêmico e muito menos o ponto final da discussão. Deve haver erros de português e concordância. Assim, ele é muito mais uma suspeita pessoal do que uma crença. Se alguma questão impertinente for suscitada, não deixem de entrar em contato).


Pergunta: "...na comunidade de Anti-design, sobre "designers sem formação", você menciona isso: '...Acredito que a semiótica contribuiu muito para o design, especialmente se pensarmos no concretismo brasileiro. Contudo, tenho sérias dúvidas se ela ainda é tão fundamental assim. Muitas discussões novas surgiram nesses campos que mencionei, o Design parece que se mantém afastado e surdo à elas.'


Queria entender melhor: porque você acha que a semiótica perdeu importância para o design?
Seria pelo fato de ele ser considerado como um "projeto falido cientificamente"? (como você tinha citado anteriormente no mesmo tópico)"



Resposta: Em primeiro lugar, é importante deixar claro que aquela é minha opinião pessoal. Está longe de ser a única verdade. 

A crítica que faço à semiótica é que ela é um sistema "que explica tudo", ou seja, busca ser perfeita em si. A discussão sobre pq acredito q isso é ruim é demasiada complexa, mas em linhas gerais posso te dizer que considero uma "boa ciência" aquela que possui capacidades de se adaptar e evoluir. Não sou doutor em semiótica, mas a minha suspeita é que o princípio de teóricos semióticos mais contemporâneos continua sendo o mesmo de Peirce. Isso, para mim, acaba gerando uma taxionomia infinita da existência, que não tem outra função senão tentar dominar os campos sígnicos de uma maneira por demais "totalizadora", agressiva, retirando dos fenômenos imagéticos grande parte do que gosto de chamar de "potência encantandora". Em outras palavras, qdo a semiótica produz essa taxionomia de signos, ela "mata" o fenômeno da imagem, pois a torna hiper-racionalizada. 


Contudo, eu não sou bobo em não admitir que ela é muito eficaz em traduções intermidiáticas, especialmente em projetos mais complexos de design (grandes projetos de sinalização, por exemplo). Meu maior problema, como te falei, é que ela já responde todas as perguntas: ela passa um método (que, ao meu ver, "agride" demais o fenômeno imagético) e você passa o resto da sua vida utilizando-o.


Isso tudo porque venho de uma linha de pesquisa chamada "Estudo do Imaginário", que busca esses aspectos de potência nas imagens, de uma potência poética, digamos assim, sem querer colocar em esquemas muito "duros". 


Por outro lado, eu reconheço hoje, como designer, um grande afastamento entre os doutores em semiótica (e teorias da comunicação em geral) e o campo do Design. Talvez, a semiótica hoje seja mais do que apenas um método "taxionomista" e tenha adquirido um desenvolvimento que se assemelhe até mesmo às considerações analíticas que eu busco fazer em meu campo. Contudo, devido a esse aparente afastamento, a situação torna-se meio uma conversa entre gregos e chineses - um não vai entender o outro tão rápido e nem tão fácil. Hoje, sendo bem generalista, as disciplinas de semiótica nos cursos de design do Brasil são muito superficiais, e enfoca-se muito no "como posso aplicar isso no mercado". O objetivo da semiótica de Peirce nunca foi a aplicação ao mercado, e essa necessidade (que é claríssima no dia-a-dia do profissional, de tudo oq se aprende deve ter uma necessidade prática no mercado) acaba deturpando demais essa ciência, gerando esse afastamento entre os doutores da área e os designers. É um ciclo vicioso: afasta-se cada vez mais e se superficializa cada vez mais. Este seria, ao meu ver, mais um problema que torna a semiótica menos importante atualmente do que outras teorias emergentes de comunicação no design..


Bom, essa discussão toda é gigante, e espero que fique claro que não condeno a semiótica totalmente - só acho que há meios alternativos de análise que poderiam ser explorados também. Contudo, como "tempo é dinheiro", e a grade curricular já é apertada pra caramba, duvido muito que algo mude. A tendência, infelizmente, é que a semiótica vá se tornando cada vez mais superficial e inútil no acervo teórico do designer, pois a distância epistemológica entre as duas áreas cresce a cada dia que passa.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Cada vez mais me identifico com a definição de "homem" do Ernest Becker:
um tubo por onde entra e saí comida, e tem um cérebro em cima.

Um cagão que se acha um deus.


E que morramos todos niilistas suicidas! 

terça-feira, 5 de agosto de 2008

ARLEQUINS APAIXONADOS - Pt. 2

(este texto serve como complemento e continuação para o anterior de título similar)



Baudrillard disse certa vez:


"O conceito é irrepresentável, mas a imagem é inexplicável. Entre eles há portanto uma distância irreparável. E por isso a imagem vive da nostalgia do texto; e o texto, da nostalgia da imagem."


Nos trabalhos de Design, isso é óbvio. Qualquer um que já recebeu um pedido para fazer um cartaz ou logo já sentiu na pele essa "distância irreparável" entre o conceito e a imagem.


Mas hoje percebi que Baudrillard queria dizer muito mais do que apenas trabalhos de comunicação visual. Se eu tomar como "imagem" um substantivo derivado da palavra "imaginação" ("ação de criar de imagens"), tenho que essa "imagem" pode ser uma mental, uma idealização. Já o "texto", ora, este é lido. Este eu posso interpretar, modificar. A imagem é pura; o texto corrompe.


E aí entramos no campo das "idealizações". A imagem, o ideal, o puro, ele nos dá sempre um horizonte. O texto nos puxa para baixo, explica, tenta nos deixar de pés no chão. E nesse caminhar infinito, ideal e real, imagem e texto se confrontam em uma luta sem toque - é uma luta nostálgica, uma luta que cheira a saudade.


Saudade do tempo em que éramos seguros, ou pelo menos do tempo que não estávamos tão sozinhos, tendo que tomar tantas decisões adultas. 


Se antes o nosso ideal era a proteção dos pais, quando crescemos queremos o ideal da Liberdade. E aí reside mais um paradoxo humano: em certos momentos, eu quero os dois. Eu quero estar seguro, confortável, acomodado e tranqüilo, mas quero também a Liberdade de pensar, agir, pensar e falar.


Existe essa Liberdade? Eu sinto que não. 

Ao menos como aquele Ideal, aquela Imagem-guia, ela nunca se tornará texto, real. Somos todos "cabeças-fechadas": aquele que decide usar drogas fecha-se para a experiência lúcida da vida; aquele que decide ser poligâmico fecha-se para a experiência monogâmica; aquele que opta por áreas biológicas fecha-se para as áreas artísticas, e por ai vai.


É claro, existe intercâmbio, conversa, troca de informações.. Mas o (con)texto é diferente. A Imagem não se altera, mas o texto nos mostra nossas limitações.


E dentro do paradoxo Libertário+Seguro, auxiliados por nossos egocentrismos narcísicos hedonistas (o pleonasmo é mais do que necessário aqui), apontamos o dedo para o Outro e dizemos ele é "fechado".


Ora, quem não é?

Ah, se apenas desculpas bastassem...


Que figura patética é o ser humano... É capaz de passar anos sem se preocupar com o mundo e, de repente, cria em 10 minutos os maiores problemas do mundo dentro de uma lanchonete.


E quem pode dizer se há um culpado? Alguém ainda acredita que há explicação racional para essas coisas? É possível colocar em palavras e fórmulas estatísticas a sensação desse ABISMO entre o Texto Real e a Imagem Ideal?


Ó Deus, quem me dera... quem me dera! As coisas seriam bem mais fáceis.


Vamos esperar que a tomada de consciência da "patetice" e "esquisitice" humana, inerente a cada um de nós e em todos os Outros, torne nossas vidas um pouco mais divertidas. =)


(esse texto inteiro é uma grande bobagem, do tipo que se escreve quando se quer parecer profundo, mas no fundo a gente sabe que está falando besteira. Ainda assim, deve haver alguma lógica nisso tudo - pelo menos dentro dele mesmo.


Ou, pelo menos, assim eu espero.)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Just a reminder...

A Dream Within A Dream

 


 

Take this kiss upon the brow!

And, in parting from you now,

Thus much let me avow-

You are not wrong, who deem

That my days have been a dream;

Yet if hope has flown away

In a night, or in a day,

In a vision, or in none,

Is it therefore the less gone?

All that we see or seem

Is but a dream within a dream.


I stand amid the roar

Of a surf-tormented shore,

And I hold within my hand

Grains of the golden sand-

How few! yet how they creep

Through my fingers to the deep,

While I weep- while I weep!

O God! can I not grasp

Them with a tighter clasp?

O God! can I not save

One from the pitiless wave?

Is all that we see or seem

But a dream within a dream? 


Edgar Allan Poe 

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um pouco de Neil Gaiman...

Tendo em vista que Neil Gaiman estará no Brasil daqui 4 dias, e que eu não vou vê-lo, o que está me matando, vou pelo menos marcar meu desespero e minha frustração por essa linda passagem de um de seus livros mais divertidos.


Em breve, se eu lembrar, eu posto mais alguma coisa dele. =)


Deus age de maneiras extremamente misteriosas, para não dizer tortuosas. Deus não joga dados com o Universo; Ele joga um inefável jogo que Ele mesmo concebeu, que poderia ser comparado, pela perspectiva de qualquer um dos outros jogadores, (por exemplo todo mundo) a estar envolvido em uma obscura e complexa versão de poker em uma sala absolutamente escura, com cartas em branco, apostas infinitas, com um Dealer que não lhe dirá as regras, e que ri o tempo todo.


Belas Maldições - Neil Gaiman & Terry Pratchett

sábado, 24 de maio de 2008

ARLEQUINS APAIXONADOS - Pt. 1

Acredito que na hora do sedução, do flerte, do apaixonar-se, não há momento mais mágico do que aquele em que você, uma pessoa perfeitamente equilibrada e normal, sente-se insignificante perante a outra. Todas suas defesas são quebradas, a ponto de sentir-se completamente exposto e indefeso ao mundo inteiro. Não há palavras ou assuntos que possam expressar suas reais intenções - e mesmo assim tentamos falar, pois o simples ouvir da voz da pessoa pretendida em retorno é grande recompensa.


É neste exato momento, do retorno em resposta e da companhia, que nos sentimos crianças tentando chamar a atenção da mãe. Somos ridiculamente pequenos, e o mundo parece grande demais para o preenchermos.


O paradoxo - ah, sempre ele! - é magnífico e sedutor: insignificância e submissão por um lado, completa e total felicidade pelo retorno do outro. 


Epifania? 


Não.

Somos apenas belos e ridículos. Apenas isso.



Ivan Alexander Mizanzuk

sábado, 10 de maio de 2008

EMPURRANDO MARGARIDAS

Definitivamente, eu não tenho capacidade para ter um blog. Acho que morreria de fome se fosse jornalista e tivesse que escrever periodicamente.

E ainda assim, me iludo achando que um dia posso ser escritor. HA!


Bom, segue abaixo um textinho que escrevi sobre o seriado Pushing Daisies. São algumas considerações filosóficas, que muita gente vai achar um saquinho, mas eu acho divertidíssimo! =D



“EMPURRANDO MARGARIDAS”

para Ana Carolina Baú

I. A Essência da Existência

Qual é a essência do homem? Qual a sua condição básica que o faz se distinguir de todos os outros animais? O que o faz tão especial?

A forma mais comum de responder essa pergunta é que o ponto principal de diferenciação do homem é a capacidade de raciocínio. Mas isso é uma falácia, pois o pensamento lógico é apenas uma de tantas outras faculdades mentais. Não apenas isso, mas poderíamos até supor a existência de um pensamento lógico em algumas espécies de animais, como certos experimentos com macacos e camundongos já pareceram demonstrar.

A pergunta então se mantém, e o antropólogo Ernest Becker, influenciado pelo pensamento da escola psicanalítica (Freud, Jung, Rank, entre outros), responde essa pergunta da seguinte forma: o homem possui duas dimensões ontológicas. A primeira é a dimensão animal, aquela ligada ao corpo, à necessidade de alimento, de evacuação, de sono, ou seja, fisiologia em geral. Já a segunda dimensão é a simbólica, que é a nossa capacidade em produzir sentido ao mundo. Esta última é o que faz nos apegarmos a um presente ou uma música que nos lembra determinada pessoa, ou ainda que nos faz questionar porque vivemos, da onde viemos, para onde vamos, etc.

Seguindo então o pensamento psicanalítico, e resgatando o pensamento de Kierkegaard, teólogo que é considerado o pai do existencialismo, Becker expõe sua tese de que existe uma dinâmica intrínseca entre as dimensões animal e simbólicas. Já dizia Protágoras que “o homem é a medida de todas as coisas”, e não acredito haver falha aí – nós, nas condições de atores e diretores de nossas próprias vidas, medimos o mundo a partir de nós mesmos. E como não é possível viver uma vida que não a nossa e ir a lugares onde não estamos lá, como tão bem exclamou, de modo frustrado, o personagem de Ethan Hawke no filme Antes do Amanhecer, tornamo-nos o centro de nosso próprio Universo. Dada esta condição espaço-temporal, o homem simbólico passa a agir mais claramente, e chega a conclusão de que ele, como centro deste Universo, é um Deus.

Mas a dimensão animal ainda está lá, e é ela quem impede (ou deveria impedir) os vôos mais altos do homem simbólico. Becker expõe muito bem o trabalho que Freud realizou sobre a condição de analidade no ser humano, ou seja, o momento em que o bebê passa a sentir que seu corpo produz substâncias que lhe incomodam, que cheiram mal. À medida em que vai crescendo, e o homem simbólico se desenvolve, a atitude ocidental é de reprimir essa dimensão fétida, suja e podre, uma postura de se auto-ignorar para que possa continuar convivendo consigo mesmo. Becker explica esse contato da dimensão animal com o simbólico com uma analogia: o homem é um Deus que caga.

Quando o bebê percebe esse seu limite fisiológico e vai crescendo, um novo fato começa a lhe fazer presente: a Morte. Um dia, algum parente ou conhecido morrerá, e o fará pensar o por quê disso acontecer. E quando estiver devidamente maduro, e entender o mecanismo fisiológico ao qual está sujeito, terá plena consciência de que poderá até realizar muitas coisas, mas no final morrerá. Há uma condição determinante no seu corpo. Ele é finito, limitado, sujo, lhe traz dores e, um dia, não funcionará mais – e não há absolutamente nada que se possa fazer quanto a isso.

No sentido Darwiniano, Becker teoriza sobre como as religiões foram formas encontradas pelo homem simbólico para contrabalançar essa condição de morte certa. Há uma dinâmica entre o simbólico e o animal, no sentido de que enquanto um começa a encontrar problemas, o outro equilibra-o de alguma forma.

Então, segundo Becker, o papel ontológico de um homem é o de assumir o mito do herói, sendo este um indivíduo que sabe que irá morrer, que sabe que não há como ter certeza do que acontecerá após a morte, e tentará não ficar louco com essa absoluta falta de sentido. As religiões, como estruturas simbólicas de mitos, coloca o homem simbólico em contato com uma dimensão heróica, permitindo-o a se adaptar e sobreviver em um mundo hostil.

Em resumo, segundo Becker, o mistério da criação é tão intenso que, se o homem não cria narrativas simbólicas que dêem sentido para sua existência, ele não consegue suportar o fardo de sua finitude. O que torna o homem “homem” seria sua capacidade de refletir sobre esta, a qual ele tem plena consciência, mesmo que deseje ignorá-la.

 

II. O Fazedor de Tortas

E eis que aparece Ned, um fazedor de tortas que tem o poder de dar a vida. Se o maior problema existencial do homem é a consciência de sua finitude, como seria a vida de alguém que tem o poder de reverter o quadro, podendo reviver qualquer um?

Aqui, é interessante pensarmos na genialidade da montagem do quadro que faz de Pushing Daisies um seriado tão interessante. Por mais que Ned tenha esse poder de reviver qualquer coisa, há conseqüências: algo deve morrer no lugar, caso o ser ressuscitado assim o fique por mais de um minuto. Além disso, ele não poderá tocar esse ser novamente, pois o segundo toque resulta em uma nova morte – dessa vez, definitiva.

Analisemos as duas situações.

Na primeira conseqüência, há uma espécie de interpretação de “Carma” no sentido budista da palavra. É como se a natureza funcionasse em um determinado fluxo, buscando um equilíbrio entre o que morre e o que vive. São forças que estão além do controle de Ned (podemos imaginar que, caso não houvesse essa condição, ele facilmente se tornaria um Deus. Mas o fato de não poder controlar essa “lei de equivalência”, o mantém ainda sujeito a forças que lhe são totalmente desconhecidas, tirando seu possível status divino).

Já na segunda, há um cenário ainda mais interessante, que é o grande foco desse texto: qual é a vantagem de algo estar vivo, mas não ser mais possível tocá-lo?

E aqui, apresento minha hipótese de que Pushing Daisies possui, além de seu caráter cômico e “fofo”, um interessantíssima análise sobre o comportamento humano no cerne das relações amorosas na atual era tecnológica/tecnofílica.

 

III. Simulações

A mentalidade pós-moderna (ou seja, atual) prima muito pelo culto ao Belo, à velocidade e ao gozo físico. Tudo tem que ser rápido, esteticamente agradável e fisicamente prazeroso. No que diz respeito às relações humanas, podemos tomar a internet como a maior expressão desse ideal de perfeição atual: ferramentas como photoshops para deixar-nos mais bonitos, orkuts para que conheçamos e falemos com o maior número de pessoas que pudermos, sites de pornografia para satisfação sexual, compras pelo cartão de crédito que prometem entrega no mesmo dia, e por aí vai.

O sociólogo francês Jean Baudrillard, falecido no ano passado, costumava dizer que vivemos em uma era de Simulacros e Simulações, ou seja, que todas nossas relações, idéias, modelos, tudo isso tem sido regulado pela cultura de mídia que passou a se formar após a segunda guerra mundial. Em resumo, a teoria dele é de que enquanto todos nós pensamos que somos livres porque temos uma opinião X, esta na verdade nos foi condicionada pelo meio midiático, que por sua vez é regulado pela cultura de Mercado (por “Mercado”, me refiro mais especificamente a grupos de interesse específicos que pretendem atingir determinada fatia da sociedade de consumo, ditando comportamentos, tendências, ideologias, etc). Ou seja, você acha que toma uma decisão e é livre por isso, mas o seu meio já esperava que você tomasse tal atitude, e está preparado para lidar com ela. Se alguém ficou confuso com isso, basta lembrar dos filmes “O Show de Truman” e a trilogia “Matrix” – todos esses filmes foram baseados nos escritos de Baudrillard.

Aqui, Protágoras pode encontrar o Mito da Caverna de Platão – o que pode soar um absurdo epistemológico no primeiro mo mento. Contudo, não acredito haver problema se pensarmos que a Caverna que vivemos hoje é muito mais sutil, e que, ao se libertar, o homem acharia que é livre, mas estaria dentro de outra caverna. Ainda assim, ele continua medindo a caverna por si mesmo. E esse é o “problema” que a pós-modernidade nos traz: o conceito de uma Verdade pura, o “sair da caverna”em Platão, cai por terra, deixando-nos com a impressão que sempre há uma caverna maior da qual devemos nos libertar. E como boa parte de nossa conduta tem sido regulado por meios de comunicação e construções ideológicas que não existem em si, desconfiamos que ficamos andando em círculos. E sempre insatisfeitos.

 

IV. Fechando a Confeitaria

Então, recapitulando:

1. a existência em si é um peso para um homem, pois ele não sabe porque existe;

2. como forma de sobreviver a este peso, o homem cria mitos que o permitem se adaptar ao seu meio;

3. na pós-modernidade, essa cultura de simulacros, nossos mitos existenciais têm sido regulados por esferas midiáticas, criando simulações em que nós pensamos ter opinião, mas na verdade só estamos repetindo modelos que já nos foram moldados e impostos desde o nascimento;

4. as relações humanas têm se tornado cada vez mais como simulações: relacionamentos devem ser rápidos, prazerosos, e geralmente vêm acompanhados da sensação de que “algo melhor pode acontecer”. Ou ainda, se estivermos em uma relação prazerosa, podemos sempre estar desconfiados que estamos sendo traídos, ou não saber o quanto aquela relação irá durar. Ainda assim, voltando às idéias de Baudrillard, temos plena certeza de que estamos desse modo sendo mais independentes, pois nossa cultura nos tem dito que devemos experimentar de tudo um pouco, viver a vida intensamente, como se não houvesse amanhã. Notem o paradoxo: tentamos viver o hoje como se não houvesse amanhã, sempre achando que o amanhã nos trará coisas melhores. Como falei há pouco, é como se estivéssemos a todo momento andando em círculos, procurando sempre algo melhor, mas saindo sempre insatisfeitos ou achando que poderíamos ter obtido algo melhor.

 

Voltando ao Pushing Daisies: ao tomar consciência das limitações de seus poderes, Ned toma uma decisão muito significativa, que é a de não se aproximar de mais ninguém. Assim, ele acredita que evitará reviver pessoas que ama, o que resultaria em relações sem qualquer contato físico – o que é impensável na mentalidade pós-moderna -, além do “pequeno” problema de alguém próximo ter de morrer para que o ressuscitado assim permaneça.

Vamos pensar agora no momento em que Ned revive seu amor de infância, a belíssima “Chuck”. Em uma atitude quase “sem querer”, totalmente instintiva e ilógica, Ned decide deixá-la viva por mais de 1 minuto, ressuscitando-a por completo (o que causou a morte daquele agente funerário mal-caráter). Notem a complexidade dessa decisão, frente a todas os pressupostos que colocamos aqui: Ned, um rapaz solitário, que decidiu se isolar por conta própria, evitando qualquer tipo de contato físico e emotivo, justamente para que não passasse pela tentação de reviver alguém que amasse, decide que é melhor viver ao lado de quem se ama, mesmo sem tocá-la, do que despedir-se para sempre. Sai de cena o relacionamento carnal, entra em cena o sentido de companheirismo.

E fica aqui nosso questionamento: quem será que hoje teria essa atitude tão corajosa? Se fosse na vida real, quem aprovaria tal atitude? Nossas mentalidades acerca das relações afetivas estão tão ligadas ao “físico-prazeroso”, ao homem animal, que deixamos de lado o companheirismo do homem simbólico. Se já não é incomum encontrarmos pessoas que reclamam que a camisinha tira grande parte do prazer no sexo, imagine tomar uma atitude na qual até um beijo e um toque de mãos deve estar separado por uma camada plástica.

Ned é um romântico, um cavaleiro solitário dos tempos modernos, que encontrou sua princesa e a deseja como companheira para o resto da sua vida – sentimento raro em nossos dias.

Não duvido que no futuro o seriado vá entrar em questões como as que coloquei aqui. Apesar do tom surreal e cômico, a forma como as relações e situações foram montadas permitem muitas possibilidades de conflitos e diálogos existenciais cativantes, divertidos e de imensa profundidade – que é o que acredito ser o grande diferencial deste seriado.

Em tempos que amores duram segundos e que o flerte é regado de simulacros culturais formados por códigos binários globalizados, Pushing Daisies realmente nos faz pensar que, aos românticos, dias melhores existirão.

 

Ivan Alexander Mizanzuk

Livros usados:

BECKER, Ernest – A Negação da Morte

BAUDRILLARD, Jean – Simulacros e Simulações