Definitivamente, eu não tenho capacidade para ter um blog. Acho que morreria de fome se fosse jornalista e tivesse que escrever periodicamente.
E ainda assim, me iludo achando que um dia posso ser escritor. HA!
Bom, segue abaixo um textinho que escrevi sobre o seriado Pushing Daisies. São algumas considerações filosóficas, que muita gente vai achar um saquinho, mas eu acho divertidíssimo! =D
“EMPURRANDO MARGARIDAS”
para Ana Carolina Baú
I. A Essência da Existência
Qual é a essência do homem? Qual a sua condição básica que o faz se distinguir de todos os outros animais? O que o faz tão especial?
A forma mais comum de responder essa pergunta é que o ponto principal de diferenciação do homem é a capacidade de raciocínio. Mas isso é uma falácia, pois o pensamento lógico é apenas uma de tantas outras faculdades mentais. Não apenas isso, mas poderíamos até supor a existência de um pensamento lógico em algumas espécies de animais, como certos experimentos com macacos e camundongos já pareceram demonstrar.
A pergunta então se mantém, e o antropólogo Ernest Becker, influenciado pelo pensamento da escola psicanalítica (Freud, Jung, Rank, entre outros), responde essa pergunta da seguinte forma: o homem possui duas dimensões ontológicas. A primeira é a dimensão animal, aquela ligada ao corpo, à necessidade de alimento, de evacuação, de sono, ou seja, fisiologia em geral. Já a segunda dimensão é a simbólica, que é a nossa capacidade em produzir sentido ao mundo. Esta última é o que faz nos apegarmos a um presente ou uma música que nos lembra determinada pessoa, ou ainda que nos faz questionar porque vivemos, da onde viemos, para onde vamos, etc.
Seguindo então o pensamento psicanalítico, e resgatando o pensamento de Kierkegaard, teólogo que é considerado o pai do existencialismo, Becker expõe sua tese de que existe uma dinâmica intrínseca entre as dimensões animal e simbólicas. Já dizia Protágoras que “o homem é a medida de todas as coisas”, e não acredito haver falha aí – nós, nas condições de atores e diretores de nossas próprias vidas, medimos o mundo a partir de nós mesmos. E como não é possível viver uma vida que não a nossa e ir a lugares onde não estamos lá, como tão bem exclamou, de modo frustrado, o personagem de Ethan Hawke no filme Antes do Amanhecer, tornamo-nos o centro de nosso próprio Universo. Dada esta condição espaço-temporal, o homem simbólico passa a agir mais claramente, e chega a conclusão de que ele, como centro deste Universo, é um Deus.
Mas a dimensão animal ainda está lá, e é ela quem impede (ou deveria impedir) os vôos mais altos do homem simbólico. Becker expõe muito bem o trabalho que Freud realizou sobre a condição de analidade no ser humano, ou seja, o momento em que o bebê passa a sentir que seu corpo produz substâncias que lhe incomodam, que cheiram mal. À medida em que vai crescendo, e o homem simbólico se desenvolve, a atitude ocidental é de reprimir essa dimensão fétida, suja e podre, uma postura de se auto-ignorar para que possa continuar convivendo consigo mesmo. Becker explica esse contato da dimensão animal com o simbólico com uma analogia: o homem é um Deus que caga.
Quando o bebê percebe esse seu limite fisiológico e vai crescendo, um novo fato começa a lhe fazer presente: a Morte. Um dia, algum parente ou conhecido morrerá, e o fará pensar o por quê disso acontecer. E quando estiver devidamente maduro, e entender o mecanismo fisiológico ao qual está sujeito, terá plena consciência de que poderá até realizar muitas coisas, mas no final morrerá. Há uma condição determinante no seu corpo. Ele é finito, limitado, sujo, lhe traz dores e, um dia, não funcionará mais – e não há absolutamente nada que se possa fazer quanto a isso.
No sentido Darwiniano, Becker teoriza sobre como as religiões foram formas encontradas pelo homem simbólico para contrabalançar essa condição de morte certa. Há uma dinâmica entre o simbólico e o animal, no sentido de que enquanto um começa a encontrar problemas, o outro equilibra-o de alguma forma.
Então, segundo Becker, o papel ontológico de um homem é o de assumir o mito do herói, sendo este um indivíduo que sabe que irá morrer, que sabe que não há como ter certeza do que acontecerá após a morte, e tentará não ficar louco com essa absoluta falta de sentido. As religiões, como estruturas simbólicas de mitos, coloca o homem simbólico em contato com uma dimensão heróica, permitindo-o a se adaptar e sobreviver em um mundo hostil.
Em resumo, segundo Becker, o mistério da criação é tão intenso que, se o homem não cria narrativas simbólicas que dêem sentido para sua existência, ele não consegue suportar o fardo de sua finitude. O que torna o homem “homem” seria sua capacidade de refletir sobre esta, a qual ele tem plena consciência, mesmo que deseje ignorá-la.
II. O Fazedor de Tortas
E eis que aparece Ned, um fazedor de tortas que tem o poder de dar a vida. Se o maior problema existencial do homem é a consciência de sua finitude, como seria a vida de alguém que tem o poder de reverter o quadro, podendo reviver qualquer um?
Aqui, é interessante pensarmos na genialidade da montagem do quadro que faz de Pushing Daisies um seriado tão interessante. Por mais que Ned tenha esse poder de reviver qualquer coisa, há conseqüências: algo deve morrer no lugar, caso o ser ressuscitado assim o fique por mais de um minuto. Além disso, ele não poderá tocar esse ser novamente, pois o segundo toque resulta em uma nova morte – dessa vez, definitiva.
Analisemos as duas situações.
Na primeira conseqüência, há uma espécie de interpretação de “Carma” no sentido budista da palavra. É como se a natureza funcionasse em um determinado fluxo, buscando um equilíbrio entre o que morre e o que vive. São forças que estão além do controle de Ned (podemos imaginar que, caso não houvesse essa condição, ele facilmente se tornaria um Deus. Mas o fato de não poder controlar essa “lei de equivalência”, o mantém ainda sujeito a forças que lhe são totalmente desconhecidas, tirando seu possível status divino).
Já na segunda, há um cenário ainda mais interessante, que é o grande foco desse texto: qual é a vantagem de algo estar vivo, mas não ser mais possível tocá-lo?
E aqui, apresento minha hipótese de que Pushing Daisies possui, além de seu caráter cômico e “fofo”, um interessantíssima análise sobre o comportamento humano no cerne das relações amorosas na atual era tecnológica/tecnofílica.
III. Simulações
A mentalidade pós-moderna (ou seja, atual) prima muito pelo culto ao Belo, à velocidade e ao gozo físico. Tudo tem que ser rápido, esteticamente agradável e fisicamente prazeroso. No que diz respeito às relações humanas, podemos tomar a internet como a maior expressão desse ideal de perfeição atual: ferramentas como photoshops para deixar-nos mais bonitos, orkuts para que conheçamos e falemos com o maior número de pessoas que pudermos, sites de pornografia para satisfação sexual, compras pelo cartão de crédito que prometem entrega no mesmo dia, e por aí vai.
O sociólogo francês Jean Baudrillard, falecido no ano passado, costumava dizer que vivemos em uma era de Simulacros e Simulações, ou seja, que todas nossas relações, idéias, modelos, tudo isso tem sido regulado pela cultura de mídia que passou a se formar após a segunda guerra mundial. Em resumo, a teoria dele é de que enquanto todos nós pensamos que somos livres porque temos uma opinião X, esta na verdade nos foi condicionada pelo meio midiático, que por sua vez é regulado pela cultura de Mercado (por “Mercado”, me refiro mais especificamente a grupos de interesse específicos que pretendem atingir determinada fatia da sociedade de consumo, ditando comportamentos, tendências, ideologias, etc). Ou seja, você acha que toma uma decisão e é livre por isso, mas o seu meio já esperava que você tomasse tal atitude, e está preparado para lidar com ela. Se alguém ficou confuso com isso, basta lembrar dos filmes “O Show de Truman” e a trilogia “Matrix” – todos esses filmes foram baseados nos escritos de Baudrillard.
Aqui, Protágoras pode encontrar o Mito da Caverna de Platão – o que pode soar um absurdo epistemológico no primeiro mo mento. Contudo, não acredito haver problema se pensarmos que a Caverna que vivemos hoje é muito mais sutil, e que, ao se libertar, o homem acharia que é livre, mas estaria dentro de outra caverna. Ainda assim, ele continua medindo a caverna por si mesmo. E esse é o “problema” que a pós-modernidade nos traz: o conceito de uma Verdade pura, o “sair da caverna”em Platão, cai por terra, deixando-nos com a impressão que sempre há uma caverna maior da qual devemos nos libertar. E como boa parte de nossa conduta tem sido regulado por meios de comunicação e construções ideológicas que não existem em si, desconfiamos que ficamos andando em círculos. E sempre insatisfeitos.
IV. Fechando a Confeitaria
Então, recapitulando:
1. a existência em si é um peso para um homem, pois ele não sabe porque existe;
2. como forma de sobreviver a este peso, o homem cria mitos que o permitem se adaptar ao seu meio;
3. na pós-modernidade, essa cultura de simulacros, nossos mitos existenciais têm sido regulados por esferas midiáticas, criando simulações em que nós pensamos ter opinião, mas na verdade só estamos repetindo modelos que já nos foram moldados e impostos desde o nascimento;
4. as relações humanas têm se tornado cada vez mais como simulações: relacionamentos devem ser rápidos, prazerosos, e geralmente vêm acompanhados da sensação de que “algo melhor pode acontecer”. Ou ainda, se estivermos em uma relação prazerosa, podemos sempre estar desconfiados que estamos sendo traídos, ou não saber o quanto aquela relação irá durar. Ainda assim, voltando às idéias de Baudrillard, temos plena certeza de que estamos desse modo sendo mais independentes, pois nossa cultura nos tem dito que devemos experimentar de tudo um pouco, viver a vida intensamente, como se não houvesse amanhã. Notem o paradoxo: tentamos viver o hoje como se não houvesse amanhã, sempre achando que o amanhã nos trará coisas melhores. Como falei há pouco, é como se estivéssemos a todo momento andando em círculos, procurando sempre algo melhor, mas saindo sempre insatisfeitos ou achando que poderíamos ter obtido algo melhor.
Voltando ao Pushing Daisies: ao tomar consciência das limitações de seus poderes, Ned toma uma decisão muito significativa, que é a de não se aproximar de mais ninguém. Assim, ele acredita que evitará reviver pessoas que ama, o que resultaria em relações sem qualquer contato físico – o que é impensável na mentalidade pós-moderna -, além do “pequeno” problema de alguém próximo ter de morrer para que o ressuscitado assim permaneça.
Vamos pensar agora no momento em que Ned revive seu amor de infância, a belíssima “Chuck”. Em uma atitude quase “sem querer”, totalmente instintiva e ilógica, Ned decide deixá-la viva por mais de 1 minuto, ressuscitando-a por completo (o que causou a morte daquele agente funerário mal-caráter). Notem a complexidade dessa decisão, frente a todas os pressupostos que colocamos aqui: Ned, um rapaz solitário, que decidiu se isolar por conta própria, evitando qualquer tipo de contato físico e emotivo, justamente para que não passasse pela tentação de reviver alguém que amasse, decide que é melhor viver ao lado de quem se ama, mesmo sem tocá-la, do que despedir-se para sempre. Sai de cena o relacionamento carnal, entra em cena o sentido de companheirismo.
E fica aqui nosso questionamento: quem será que hoje teria essa atitude tão corajosa? Se fosse na vida real, quem aprovaria tal atitude? Nossas mentalidades acerca das relações afetivas estão tão ligadas ao “físico-prazeroso”, ao homem animal, que deixamos de lado o companheirismo do homem simbólico. Se já não é incomum encontrarmos pessoas que reclamam que a camisinha tira grande parte do prazer no sexo, imagine tomar uma atitude na qual até um beijo e um toque de mãos deve estar separado por uma camada plástica.
Ned é um romântico, um cavaleiro solitário dos tempos modernos, que encontrou sua princesa e a deseja como companheira para o resto da sua vida – sentimento raro em nossos dias.
Não duvido que no futuro o seriado vá entrar em questões como as que coloquei aqui. Apesar do tom surreal e cômico, a forma como as relações e situações foram montadas permitem muitas possibilidades de conflitos e diálogos existenciais cativantes, divertidos e de imensa profundidade – que é o que acredito ser o grande diferencial deste seriado.
Em tempos que amores duram segundos e que o flerte é regado de simulacros culturais formados por códigos binários globalizados, Pushing Daisies realmente nos faz pensar que, aos românticos, dias melhores existirão.
Ivan Alexander Mizanzuk
Livros usados:
BECKER, Ernest – A Negação da Morte
BAUDRILLARD, Jean – Simulacros e Simulações